Nota coletiva de posição sobre a ‘Chacina de Campinas’: Pelo direito à uma vida sem violência!

TODO APOIO AO ATO EM CAMPINAS, realizado no dia 05.01.2017, 17h no Largo do Rosário.

Mais organizações feministas e organizações aliadas da luta feminista somam-se na dor e no repúdio ao feminicídio coletivo, seguido de suicídio, ocorrido na madrugada do 1 de janeiro, em Campinas-SP. Esta nota faz novo alerta feminista ao sistema de justiça, de educação, de assistência social e à midia. A adesão segue aberta a todas às organizações dos movimentos sociais.

(*) Esta versão é a da nota completa com adesões recebidas até as 15h de 05.01.2017.

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A tragédia anunciada durante uma década.

Era fim de ano, tempo de comemorar a chegada de um novo janeiro e o alento para os horizontes que estavam por vir. O Brasil, porém, amanhecia impactado com a forte repercussão de um crime violento cometido por um homem inconformado com o fim de uma relação. Entre os argumentos para assassinar o agressor usou, em sua defesa, a vida da mulher e o desejo dela por liberdade. Era 1976, exatamente 30 de dezembro; e a vítima, Ângela Diniz.

Quarenta anos depois, em 1º de janeiro de 2017, tivemos nossa esperança no novo ano abatida por um feminicídio que levou a violência a outro patamar. Ao assassinar nove mulheres de um mesmo círculo de relações em Campinas (SP), Sidnei Ramis de Araújo indicou que, para lavar sua honra, não bastava matar a ex-companheira, o alvo de seu ódio. Foi necessário acabar com a vida de parentes e amigas.

Além da quantidade de vítimas fatais no crime, a carta deixada pelo agressor confirma a potência letal do ódio a mulheres. Se nos 40 anos que separam os crimes de Doca Street e Sidnei Ramis de Araújo nós, mulheres brasileiras, avançamos em direitos, a estrutura de dominação patriarcal – responsável por matar 13 mulheres diariamente no país – conseguiu criar barreiras contra nossa conquista de uma vida plena de direitos.

Uma consulta a arquivos sobre feminicídios indicou esse como primeiro caso em que o assassino constrói uma narrativa em relação à lei que protege mulheres e crianças das agressões domésticas: “Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia) tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!”

Além das investigações e da responsabilização de eventuais envolvidos no crime (por ação ou negligência), é necessário refletir sobre como os poderes públicos têm colocado em xeque a Lei Maria da Penha. Apesar de ser uma das nossas maiores conquistas, junto com a aprovação da lei do Feminicídio, a punição dos agressores e a prevenção concreta dos crimes ainda demandam mobilização social. Uma avaliação do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) apontou que a Lei conseguiu reduzir em 10% os homicídios de mulheres por violência doméstica, mas que ainda há diferentes graus de institucionalização dos serviços protetivos às vítimas pelo país.

Isamara Filier, ao longo de 10 anos, período que coincide com a aprovação da Lei Maria da Penha, registrou cinco boletins de ocorrência contra o ex-companheiro por agressão e ameaça, e também por abuso sexual contra seu filho. Sua morte se anunciava desde 2005. Onze anos depois, com o Estado falhando na prevenção e na proteção, o crime se concretiza.

O desejo de exterminar a maior quantidade possível de mulheres da mesma família – como ficou claro na carta divulgada pela imprensa – é um alerta. O ódio dos agressores de mulheres têm sim potencial para construir grandes tragédias. É com essa realidade que todos os atores sociais – os sistemas de Justiça, de assistência social, e também os de educação e os meios de comunicação – precisam lidar ao tratar da violência contra as mulheres. Somos o quinto país que mais assassina mulheres no mundo. Na visão de agressores como Sidnei, esta semana, ou Doca Street, 40 anos atrás, vadias somos todas nós mulheres que lutamos por liberdade e autonomia.

A morte de Isamara, seu filho, amigas e familiares demonstra que as Leis não findam em si mesmas. A violência contra as mulheres é um problema estrutural da cultura machista, racista e homo-lesbo-transfóbica, que nega às mulheres o direito a uma vida livre e plena.

Nós – mulheres do movimento feminista organizado – não podemos deixar que a impunidade se perpetue. Comprometemo-nos a cobrar punições de imediato. Em paralelo aos avanços nas legislações, que precisam ser implementadas verdadeiramente, seguimos também na luta pela transformação da sociedade voltada à construção de um país que garanta uma vida sem violência para todas as pessoas.
Articulação de Mulheres Brasileiras -AMB
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB
Coordenação Nacional da Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ
Coletivo de Mulheres Defensoras Públicas do Brasil
Coletivo Nacional de Mulheres do PSOL
GT de Mulheres de Axé da Rede Nacional de Religiões Afro Brasileira REAFRO
Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas – FENATRAD
Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia MAMA
Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MMTR-NE
Movimento de Mulheres Camponesas MMC
Rede de Mulheres Negras do Nordeste
Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Reprodutivos e Direitos Sexuais
Rede Nacional de Pessoas com HIV e Aids
Rua Juventude Anticapitalista
União Brasileira de Mulheres UBM
União de Mulheres da Amazônia Brasileira UMIAB
#partidA – construindo a democracia feminista
Em solidariedade: Articulação Feminista MarcoSur (America Latina)

AMB Rio, Rio de Janeiro (RJ)
AMB São Paulo (SP)
AMB Mato Grosso do Sul (MS)
AMA Articulação de Mulheres do Amazonas (AM)
Articulação Aids Pernambuco, Recife (PE)
Articulação de Mulheres do Amapá (AP)
Articulação de Mulheres Indígenas do Maranhão (AMIMA, MA)
Coordenação e Articulação dos Povos Indígenas do Maranhão (MA)
Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM/Brasil)
Diretoria de Políticas para Mulheres da Federação dos Trabalhadores Rurais de Pernambuco (PE)
Federação dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal do Ceará (CE)
Federação dos Trabalhadores Rurais e Agricultores e Agricultoras familiares do Ceará (CE)
Federação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino e no Serviço Público no Sul do Maranhão (MA)
Fórum Justiça (RJ)
Fórum de Mulheres do Sertão do Araripe (PE)
Fórum de Mulheres de Jaboatão (PE)
Fórum Cearense de Mulheres (CE)
Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense (PA)
Fórum de Mulheres Maranhense (MA)
Fórum de Mulheres de Imperatriz (MA)
Fórum de Mulheres do Amapá (AP)
Fórum de Mulheres do Distrito Federal (DF)
Fórum de Mulheres do Espírito Santo (ES)
Fórum de Mulheres de Pernambuco (PE)
Fórum Permanente das Mulheres de Manuas (AM)
Fórum de Mulheres do Rio Grande do Norte (RN)
Levante Popular da Juventude
Movimento e Articulação de Mulheres do Estado do Pará (PA)
Movimento Ibiapabano de Mulheres (CE)
Movimento de Mulheres Solidária do Amazonas (AM)
Movimento de Promotoras Legais Populares de Mauá (SP)
Movimento de Mulheres da Floresta – Dandara (AM)
Movimento Mais Mulheres OAB Roraima (RR)
Movimento de Mulheres Negras de Colatina e Região de Zacimba Gaba (ES)
Rede de Mulheres Negras de Pernambuco (PE)
Rede de Mulheres de Terreiro (PE)
Rede de Mulheres em Articulação da paraiba (PB)

Associação de Mulheres Amigas de Itinga AMMIGA (BA)
Associação de Mulheres do Bacuri e Adjacências (MA)
Associação Catarinas, Florianópolis (SC)
Associação de Mulheres Buscando Libertação, Cariacica (ES)
Associação de Mulheres da Serra (ES)
Associação Brasileira de Mulheres da Carreira Juridica – Espirito Santo (ES)
Bamidelê Organização de Mulheres Negras da Paraiba (PB)
Cabelaço (PE)
Casa da Mulher do Nordeste (PE)
Casa da Mulher 8 de Março (TO)
Casa Chiquinha Gonzaga (CE)
Centro de Direitos Humanos Pe. Josino (MA)
Centro Feminista de Estudos e Assessoria -CFEMEA (DF)
Cepia Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação, Ação (RJ)
Centro Acadêmico de História Bem-Te-Vis UEMA (MA)
Coco de Mulheres (PE)
Cidadãs Positivas de Pernambuco (PE)
Coletivos de Mulheres Negras Carolinas (RN)
Coletiva de Mulheres de Lauro de Freitas (BA)
Coletivo Marcha das Vadias Recife (PE)
Coletivo de Mulheres do Calafate (BA)
Coletivo de Mulheres de Jaboatão (PE)
Coletivo Maria Vai com as Outras (ES)
Coletivo Mulher Vida (PE)
Coletivo Alumiá (SP)
Coletivo Quebrando Vidraças (PE)
Comitê Popular Urbano de Belém (PA)
Coletivo de Mulheres Casa Lilás (PE)
Coletivo de Mulheres Passirenses, (PE)
Cunhã Coletivo Feminista (PB)
Diakonia Organização Crsitã de Defesa dos Direitos Humanos e Promoção da Justiça (Fortaleza – CE)
Espaço Feminista URI HI (AM)
Espaço Mulher (PE)
FASE
Grupo Cidadania Feminina (PE)
Grupo Alternativo de Geração de Renda da Economia Solidária (PA)
Grupo Curumim (PE)
Grupo Cultural Femini Nação (PE)
Grupo de Mulheres Jurema (PE)
Grupo de Pesquisa/Uepa: Movimentos Sociais, Educacao e Cidadania na Amazonia – GMSECA (PA)
Grupo Mulher Maravilha (PE)
GTP+ (PE)
IMAIS (BA)
Instituto Papai (PE)
Instituto Inegra (CE)
Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos (PA)
Instituto Maria da Penha (CE)
Instituto Amazônia Solidária IAMAS (PA)
Mirin Brasil (PE)
NEPEM-UFMG (MG)
NIGS – Nucleo de Identidades de Genero e Subjetividades / UFSC
Núcleo de Mulheres de Roraima – NUMUR (RR)
Núcleo Amélias da Marcha Mundial de Mulheres ( RN)
N30 Pesquisas (RJ)
Redeh Rede de Desenvolvimento Humano, (RJ)
Secretaria Estadual de Mulheres do PT (PE)
Secretaria de Mulheres da CUT (CE)
Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Pernambuco, Recife (PE)
Sindicato dos Professores Especialistas de Imperatriz (MA)
Sítio Agatha – Espaço de Agroecologia Militante Feminista Étnico-Racial
SOS Corpo – Instituto Feminista para Democracia (PE)
Tribo Aldeia da Juventude (PA)
Uialá Mukaji Sociedade de Mulheres Negras (PE)
Zalika – Maternidade, Parto e Infância (ES)

(*) Ao fechar a inclusão de assinaturas no dia de hoje, novo caso de assassinato coletivo foi divulgado, desta vez em Feira de Santana, matando cinco mulheres, filhas e parentes do assassino que encontra-se foragido.

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