Analba Brazão: “Me gritaram negra. NEGRA eu sou!”

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Por Analba Brazão Teixeira *

18 de Novembro: qual o desafio que fica para nós, organizadas na AMB? Nós que estamos em um movimento misto, para não deixar morrer esta energia e mobilização que tomou conta do país?

Ontem foi um dia histórico para nós mulheres da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), em especial para nós mulheres Negras!

A Marcha das Mulheres Negras que estávamos envolvidas nos nossos estados, há dois anos, que no comitê político da nossa Articulação, no ano de 2012, decidimos que iríamos apoiar e construir, mesmo sem estarmos na coordenação, conseguimos!

Desde 2010 que tiramos como uma das frentes de luta prioritária a de enfrentamento ao racismo. Foi uma decisão politica estratégica. Botamos na rua nossa campanha “Solte seus cabelos e prenda seu racismo”, e a partir desta campanha, que foi lançada nos quatro cantos do País, surgiram coletivos como o Cabelaço PE, e a luta antirracista na AMB se fortaleceu, em vários outros momentos, como o 25 de julho e este ano com o 08 de março e o nosso manifesto do ENEGRECER o 08 de Março.

Este breve preâmbulo é só para contextualizar um pouco por que nós mulheres negras e não negras da AMB nos envolvemos tão profundamente na construção da Marcha das Mulheres Negras. Claro que toda a construção política, com diversas sujeitas, não é simples. Fazer Política não é simples, mas soubemos nos posicionar, por que a luta é muito maior e a importância dessa marcha era ÍMPAR, principalmente para este momento de retrocesso que estamos vivendo no Brasil. Fizemos muitos debates, muitos seminários, análises de conjuntura construindo o sentido da marcha das mulheres negras, e realizamos também a Videoconferência.

As mulheres do NUMUR, em Roraima, realizaram no dia 15 de novembro a Marcha de Mulheres Negras em Boa Vista, já que elas não conseguiriam chegar em Brasilia. A mobilização nos estados foi imensa e intensa. Mesmo com as dificuldades financeiras conseguimos ter uma ótima delegação, animada , colorida e diversa, como é o nosso jeito AMB de ser e de fazer.

Nossa Roda de Conversa no dia 17 de novembro teve a participação de mais de 60 mulheres, da AMB e muitas que estavam chegando nesta movimentação. Foi uma mistura de depoimentos sobre experiências doloridas sobre o racismo vivido, e também debatemos muito o sentido da marcha, a importância da marcha e o que nos aponta o pós marcha. Qual o desafio que fica para nós, organizadas? Nós que estamos em um movimento misto, para não deixar morrer esta energia e mobilização que tomou conta do país?

Nossa ciranda e roda de chegada, já no ginásio, no final da tarde, foi emocionante. Cantar o Uialá Mulher, nossa música da campanha, no meio do estádio Nilson Nelson, e as mulheres que ali estavam entrar na nossa roda e ficar com a emoção de gritar “Bote banca e exija respeito… Racismo é fel maculando a alma”. Foi demasiadamente DEMAIS! Ver as faixas no estádio, com as frases “Pilula Fica, Cunha Sai – Mulheres Negras no Fora Cunha”, “Defendemos o SUS sem Racismo”, ” Todas as Lutas são contra o Capitalismo”, “Reforma Política já”, “Exigimos a demarcação imediata dos nossos territórios tradicionais”, “Mulheres negras contra o machismo e racismo”, entre outras , deu para perceber o teor político da nossa Marcha Contra a violência, contra o racismo e pelo BEM VIVER.

Ficar no estádio a noite, vendo a chegada das delegações por toda a madrugada, a recepção de todas que estavam já acampadas, o acender e apagar das luzes no estádio, as filas de madrugada para o banho, a energia e resistência das pretas, a emoção de estar juntas – AS PRETAS – em um só lugar, dormindo todas juntas… ou não dormir! Eu particularmente não dormi e fui ver a juventude negra fazendo festa no lado de fora do estádio, indo pela madrugada até às 5h30, mesmo sabendo que de manhã a jornada seria longa. A empolgação era tanta , que cansaço não se tinha. Estava tão excitada que não consegui pregar o olho! Ver tudo aquilo me alimentou a alma e me energiza, ver tudo isso me ALIMENTA a alma e me energiza.

E aí chega o dia… Amanhece e muitas delegações ainda não tinham chegado. Continuam as filas para os banhos, para o café da manha e as mulheres vão chegando. “Elas estão chegando, pelas portas e janelas, avenidas e ruelas, elas estão chegando…”. A imagem era esta e cada momento a emoção vinha.

Mesmo perdidas, sem saber como seria, com os atrasos, com os discursos no início da marcha (parece até que estavam adivinhando que o final haveria aquele tumulto),  já estava desenhado o que seria esta caminhada histórica.

As batuqueiras de Goiás, as Loucas de Pedra Lilás e da Zona da Mata Sul (PE), as batuqueiras da Paraíba e muitas outras que se somaram, fizeram a alegria da nossa ala, desde a concentração. Foi muito lindo. Os nosso chapéus, os nossos tecidos, as vassouras de açaí das companheiras do Pará, as nossas palavras de desordem feministas, tudo isso acompanhou a caminhada.

Eram muitas mulheres, a marcha estava muito linda! As indígenas que estavam abrindo a marcha, as quilombolas, eram muitas…milhares. E essas mulheres me lembraram as marchas que participei nos países da Africa, no Fórum Social Mundial no Quênia, no Senegal e na Tunísia. Viemos mesmo de lá… A marcha não foi só caminhada: a marcha foi dançada e cantada. Emoção, emoção, emoção.

Tudo tava lindo e maravilhoso, até chegarmos no Congresso Nacional e nos deparamos com o Acampamento dos Fascistas , dos pró impeachment  e pela intervenção militar. Os racistas estavam presentes e querendo destruir a MARCHA. Mas não conseguiram. O tumulto foi grande, muita revolta, muito difícil. Escutar as bombas de gás, ver o choro de revolta das mulheres, foi difícil. Mas RESISTIMOS, mais uma vez. Não DESISTIMOS, nem nos CALAMOS. E cada vez mais ficou nítido que temos mesmo que empretecer a rua contra estes RACISTAS de plantão – e aqueles estavam de plantão mesmo!

Depois deste momento, triste e revoltante, foi o momento de nos abraçarmos, de nos acolhermos, de chorarmos juntas, de levantarmos a cabeça e continuarmos. A Marcha continuou, apesar da dispersão, do cansaço. Muitas de nós foram ficando pelo caminho, mas muitas seguiram caminhando de volta até o ginásio Nilson Nelson.

Eu, que imaginava que tinha dispersado, peguei um táxi para o estádio e encontro a marcha! E ainda mais no carro de som está vindo aquela canção “Um sorriso Negro”, com todas cantando junto, o que me fez parar e sair do táxi, e seguir com elas. Não tinha como não fazer isso! Fui me juntar novamente às mulheres que continuavam resistindo, alegres, felizes, saltitantes, emocionadas, gratificadas. LINDO DEMAIS. Cansadas mas felizes.

De volta ao ginásio: almoço, todas sentadas no chão, com seus pratos e várias já se organizando para ir embora. No palco, mesmo com chuva, muitas ainda resistiam e dançavam ao som do Ilê Aye, aquele que é bonito de se ver. Vários grupos de mulheres negras a se apresentar. Era hora de dançar… e dançamos, dançamos e dançamos.

No fim da tarde, a cada momento, uma delegação era chamada: “a delegação do Rio Grande do Norte está saindo…”. Depois era chamada outra e outra e outra delegação. As mulheres se foram, muitas ainda estão estrada, muitas que só chegarão nas suas cidades no sábado e no domingo, mas todas com certeza estarão viajando felizes, energizadas, e prontas para continuar lutando pelo fim do racismo. Pelo fim do racismo e por uma transformação social que contemple a todas.

Me gritaram negra : NEGRA eu SOU!

Analba Brazão Teixeira, no auge da emoção.

*Texto publicado originalmente no site do SOS CORPO.

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