AMB na Marcha de Mulheres Negras: nas ruas para enfrentar o racismo e os retrocessos

Por Carmen Silva

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Na véspera da Marcha de Mulheres Negras, em Brasília, a Articulação de Mulheres Brasileiras se encontra em uma roda de conversa discutindo o racismo, a violência e o bem viver em uma perspectiva feminista. Mulheres de todo o Brasil se juntaram nesta reflexão discutindo o significado político da Marcha nesta conjuntura e pensando futuro: como fortalecer a luta feminista antirracista depois da Marcha.

Rivane Arantes, do Fórum de Mulheres de Pernambuco e do comitê impulsor da Marcha naquele estado, referiu-se ao sentido desta movimentação em Brasília, resgatando a sua construção a partir das lutas históricas das mulheres negras. “Temos responsabilidade com o passado, com as mulheres que nos antecederam. É um passado de resistência acontecendo no presente, mas também com forte preocupação com o futuro. A Marcha é um pretexto para seguirmos nos organizando”, falou. Para ela, o sentido da Marcha de Mulheres Negras é de ruptura com a opressão machista e sexista.

Vinda do Ceará, Francisca Sena, trouxe à roda de diálogo, a voz das nossas ancestrais sequestradas do continente africano, raiz primeira de nossas lutas. Em termos de movimento político atual, segundo Sena, o marco da organização das mulheres negras, é o primeiro encontro nacional em 1988. Apesar da movimentação construída a partir daí, ainda hoje, as políticas públicas não chegam a mudar as precárias condições de vida. Mas isso não é para nos colocarmos no lugar de vítimas, afirma, “nós mulheres negras somos sujeito político da construção de uma nova sociedade”.

As mulheres negras trouxeram uma grande contribuição para o feminismo, comenta Sena. “Enegrecer o feminismo significa reconhecer que nós mulheres temos algo em comum, mas também que, entre nós, há desigualdades raciais. Para enfrentar as diversas opressões, que acontecem de forma articulado, é que as mulheres se organizam contra o racismo e o patriarcado”.

Muitos depoimentos alimentaram a indignação durante a roda de diálogo. Rebeca Nascimento e Veronica Pedro, de Recife, denunciaram o racismo sofrido em ambiente escolar. Ítala Izidoro da Silva, de Água Preta (PE), trouxe pra roda a difícil relação com o cabelo que é condenado  pelo racismo a viver esticado e como ela conseguiu se libertar da chapinha. Teofila de Souza, também de Água Preta, comentou como a questão da cor da pele é significativa no Brasil para o reconhecimento das pessoas como negras. Cristina Lima, da Paraíba, narrou como ela se descobriu negra ao ouvir isso em tom de xingamento na rua.

Como seguir após a Marcha? Esta pergunta mobilizou a conversa. Segundo Edcléa Santos, coordenadora do FMPE, “o sentido da Marcha é mostrar que estamos vivas, que estamos nas ruas enfrentando o racismo, que vamos seguir na luta, porque os machistas e racistas perderam o pudor e escancararam a violência”. O escancaramento a que Edcléa se refere é a presença pública dos discursos racistas e machistas no Congresso Nacional e nas ruas no Brasil nos últimos tempos. Segundo Jolúzia Batista, isso é parte da conjuntura de ataques sucessivos aos direitos das mulheres, de riscos de retrocessos. Para ela, é o momento de “dar um murro na boca do estômago do Congresso”.

Empretecer o planalto e gritar bem alto que não aceitamos retrocesso! Esta consigna aqueceu o coração das militantes da AMB. Analba Brazão, ex-coordenadora da AMB, afirmou que para o movimento feminista a Marcha é um pretexto para a organização das mulheres negras. “A partir do processo preparatório estão surgindo coletivos de mulheres negras em todos os recantos do país. Cresce a luta feminista antirracista. E isso nos desafia muito a construir o que virá depois”. Mércia Alves, militante da AMB que esteve integrada na construção da Marcha em Pernambuco, concorda que os desafios são muitos. “A AMB, como movimento misto, que congrega mulheres negras, brancas e indígenas, segue desafiada a resgatar a historicidade das lutas das mulheres negras e a continuar construindo o feminismo negro e o feminismo antirracista”.

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