#MarchadasMargaridas2015 – AUTONOMIA ECONÔMICA, TRABALHO E RENDA

Na contagem regressiva da Marcha das Margaridas: a Articulação de Mulheres Brasileiras  tem publicado um texto do caderno de formação por semana, nestas dez semanas que antecedem a Marcha. Este é o quarto e aborda a relação das Margaridas com a Autonomia Econômica, Trabalho e Renda

A autonomia econômica significa para as mulheres do campo, da floresta e das águas ter independência financeira, isto é: capacidade de sustentar a si mesmas e as pessoas que delas dependem; ter acesso a políticas públicas e aos recursos necessários para produzir; ter controle sobre o seu tempo, mas, também, ter o controle sobre o próprio corpo e sua vida. Em outras palavras, as mulheres devem ter condições de ter liberdade de decisão, serem donas dos seus destinos e das suas vidas. Com este entendimento, para debater autonomia econômica, é fundamental reconhecer o trabalho das mulheres e questionar a divisão sexual do trabalho.

No campo, a divisão sexual do trabalho se estrutura a partir das tarefas da casa e as do roçado e na hierarquia entre as tarefas realizadas por mulheres e homens nesses espaços. A separação entre os espaços do roçado e da casa define o que é considerado trabalho pesado e trabalho leve ou ainda, trabalho e não trabalho. Desvalorizar o trabalho doméstico e de cuidados sempre foi uma forma de desvalorizar, controlar e oprimir as mulheres.

Essa é uma das questões na qual mais precisamos avançar. Uma pesquisa realizada nas cinco regiões do Brasil em 2013, pela organização Plan Internacional, intitulada “Por Ser Menina no Brasil: Crescendo entre Direitos e Violências” denuncia um contexto de gritantes desigualdades de gênero entre meninos e meninas: quando perguntadas sobre o acesso aos direitos, violências sofridas, barreiras, sonhos e superações, a realidade vivida pelas meninas mostra o quanto o pleno desenvolvimento de suas habilidades para a vida está comprometido. No que se refere à responsabilidade pelos afazeres domésticos, identificamos que enquanto 76,8% delas lavam louça e 65,6% limpam a casa, apenas 12,5% de seus irmãos contribuem com a lavagem da louça e 11,4% com a limpeza da casa. Os dados mostram ainda que uma menina em cada cinco conhece outra que já sofreu violência, além de 13,7% das meninas de 6 a 14 anos trabalharem ou já terem trabalhado fora de casa.

No meio rural, a vida das mulheres também é marcada por uma realidade de relações patriarcais. Na grande maioria das situações, os homens determinam os rumos da família, que se organiza a partir do poder masculino, centrado na figura do pai, cujos interesses são apresentados como sendo de todo mundo, de toda a família. Nesse cenário, os desejos e opiniões das mulheres são oprimidos e o trabalho produtivo e reprodutivo que realizam é invisibilizado. Romper este sistema social é um dos desafios da Marcha das Margaridas.

Como é visto pela sociedade o trabalho realizado pelas mulheres

Embora se diga que as mulheres nasceram para ser mães e que essa deve ser sua principal função, sabemos que as mulheres estão em todos os espaços, ao mesmo tempo realizando as atividades produtivas e as reprodutivas, gerando bens e renda. Por produção entendese o que pode ser transformado em mercadoria e vendido no mercado, e por reprodução as atividades vinculadas ao trabalho doméstico e de cuidados.

No capitalismo, houve uma redução do conceito de trabalho àquelas atividades vinculadas ao mercado, enquanto antes do capitalismo o trabalho consistia no conjunto das atividades necessárias à existência humana. Desta forma, o capitalismo instituiu a separação entre esfera produtiva e esfera reprodutiva, que corresponde à separação entre espaço público e espaço privado.

O modelo capitalista de desenvolvimento valoriza apenas produtos que podem ser comercializados. Produtos para autoconsumo, a produção extrativista, as trocas solidárias, não são consideradas como parte da economia. Da mesma forma, o trabalho realizado pelas mulheres, na casa e nos cuidados com filhas/os e idosas/os não é reconhecido. É preciso rever essa visão limitada da economia, para uma concepção mais ampliada voltada para o bem estar de todas e todos.

Leia mais sobre: Participação econômica das trabalhadoras rurais; Economia Feminista e Solidária e a força dos grupos produtivos de mulheres; O que a Marcha das Margaridas defende como políticas de fortalecimento da autonomia econômica trabalho e renda das mulheres rurais; entre outros assuntos no texto completo, disponibilizado no Caderno de Textos de Formação (páginas 34 à 43)

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